Princípio 05 · O esforço certo

Dificuldades desejáveis e intercalação: porque misturar temas fixa melhor

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Dificuldades desejáveis são condições que tornam a prática mais exigente no momento, mas que podem melhorar a retenção a longo prazo, desde que a pessoa tenha bases para as ultrapassar. A intercalação é um exemplo: uma revisão sistemática de 2021 encontrou benefícios na memória e na transferência para casos novos quando se misturam exemplos de vários conceitos.

O que é

A expressão dificuldades desejáveis vem de Robert Bjork. Descreve condições de prática que parecem tornar a aprendizagem mais lenta ou mais difícil, mas que podem melhorar a retenção a longo prazo.

A intercalação (interleaving, em inglês) é uma dessas condições: em vez de praticar um tipo de problema de cada vez, em blocos, misturam-se vários tipos na mesma sessão.

O que dizem os estudos

Desejável só se estiver ao alcance

Robert e Elizabeth Bjork sublinham que uma dificuldade só é desejável se a pessoa tiver o conhecimento prévio para lhe responder com êxito; sem isso, torna-se uma dificuldade indesejável. Lembram também que o desempenho durante a prática não é uma medida fiável da aprendizagem, o que pode levar alunos e professores a preferir condições piores.

Bjork e Bjork (2020), Journal of Applied Research in Memory and Cognition.

Intercalar ajuda a memória e a transferência

Uma revisão sistemática de 26 estudos, com meta-análise de 17, encontrou benefícios da intercalação na memória dos exemplos estudados (g até 0,65) e na transferência para exemplos novos (g até 0,66). O benefício foi maior quando as diferenças entre os itens eram subtis e manteve-se em testes adiados. A maior parte dos estudos foi feita em laboratório, com estudantes universitários.

Firth, Rivers e Boyle (2021), Review of Education.

Mais difícil, e melhor, numa disciplina real

Durante oito semanas, alunos de uma disciplina introdutória de física fizeram trabalhos de casa com problemas intercalados ou organizados por tema. Em dois testes surpresa, com problemas novos e mais difíceis, a prática intercalada levou a melhorias medianas de 50% e de 125%. Os alunos acharam a técnica mais difícil e julgaram, erradamente, que aprendiam menos com ela.

Samani e Pan (2021), npj Science of Learning.

O valor g mede a diferença entre os grupos em desvios padrão: quanto maior, maior a vantagem de quem intercalou.

De onde vem a ideia. Robert Bjork propôs a expressão em 1994: condições que tornam a prática mais exigente podem melhorar a retenção a longo prazo. Em 2007, Rohrer e Taylor mostraram que misturar tipos de problemas de matemática na prática melhorava muito o desempenho num teste uma semana depois, face à prática em blocos.

A facilidade no momento pode enganar. O esforço certo é o que fica.

Porque funciona

  • Obriga a escolher. Quando os temas estão misturados, não basta repetir o mesmo procedimento: é preciso perceber primeiro que tipo de pergunta se tem à frente.
  • Evita a falsa sensação de domínio. Em blocos, a resposta certa parece óbvia porque é igual à anterior.
  • Combina com o espaçamento. Misturar temas afasta naturalmente as revisões do mesmo tema, o que se liga à repetição espaçada.

Como o jogo aplica isto

Exemplo ilustrativo. Numa jogada, perguntas de temas diferentes aparecem misturadas.
  • Cada jogada mistura perguntas de níveis anteriores com as novas.
  • O relógio e as respostas erradas plausíveis acrescentam um esforço moderado a cada resposta.
  • Três ajudas por jogada (mais tempo, 50/50 e trocar a pergunta) evitam que uma pergunta difícil bloqueie a jogada, para que a dificuldade continue desejável.

Referências

  1. Firth, J., Rivers, I. e Boyle, J. (2021). A systematic review of interleaving as a concept learning strategy. Review of Education, 9(2), 642 a 684. doi:10.1002/rev3.3266
  2. Samani, J. e Pan, S. C. (2021). Interleaved practice enhances memory and problem-solving ability in undergraduate physics. npj Science of Learning, 6, 32. doi:10.1038/s41539-021-00110-x
  3. Bjork, R. A. e Bjork, E. L. (2020). Desirable difficulties in theory and practice. Journal of Applied Research in Memory and Cognition, 9(4), 475 a 479. doi:10.1016/j.jarmac.2020.09.003
  4. Rohrer, D. e Taylor, K. (2007). The shuffling of mathematics problems improves learning. Instructional Science, 35(6), 481 a 498. doi:10.1007/s11251-007-9015-8
  5. Bjork, R. A. (1994). Memory and metamemory considerations in the training of human beings. Em J. Metcalfe e A. Shimamura (Eds.), Metacognition: knowing about knowing. MIT Press, pp. 185 a 205.
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