Princípio 02 · Quando rever

Repetição espaçada: rever no momento certo para não esquecer

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Resposta curta

Repetição espaçada é rever um conteúdo em várias ocasiões separadas por intervalos, em vez de o estudar todo de uma vez. Meta-análises publicadas desde 2020 encontraram uma vantagem forte em espaçar as sessões de perguntas e uma delas, sobre línguas, mostrou que, para recordar mais tarde, intervalos mais longos funcionam melhor do que intervalos curtos.

O que é

Na repetição espaçada, o mesmo conteúdo é revisto várias vezes, com intervalos entre as revisões. O fenómeno em que assenta chama-se efeito de espaçamento (spacing effect, em inglês): distribuir o estudo no tempo produz melhor retenção do que concentrá-lo numa só sessão.

A ideia é simples, mas pô-la em prática à mão é difícil: cada pessoa esquece a um ritmo diferente, e cada conteúdo também.

O que dizem os estudos

Espaçar as perguntas dá uma vantagem forte

Numa meta-análise de 29 estudos, responder às mesmas perguntas em sessões espaçadas deu melhor retenção do que fazê-lo em sessões seguidas (g = 0,74, um benefício que os autores classificam como forte). Um calendário de intervalos cada vez maiores não foi melhor do que intervalos iguais (g = 0,034), embora a vantagem dos intervalos crescentes aumentasse com o número de vezes que cada item era testado.

Latimier, Peyre e Ramus (2021), Educational Psychology Review.

Intervalos mais longos para recordar mais tarde

Numa meta-análise de 48 experiências sobre a aprendizagem de uma segunda língua, com 3 411 participantes, espaçar a prática teve um efeito médio a grande. Intervalos curtos foram tão eficazes como intervalos longos num teste imediato, mas menos eficazes num teste adiado. Intervalos iguais e crescentes foram equivalentes.

Kim e Webb (2022), Language Learning.

Funciona, mas usa-se pouco

Uma revisão da investigação sobre espaçamento e prática de recuperação, com ênfase em contextos educativos reais, descreve como estas estratégias melhoram a aprendizagem em vários domínios e idades. Os autores notam que continuam pouco usadas e apontam causas possíveis: crenças erradas sobre como se aprende, desconhecimento destas estratégias e o facto de parecerem contra-intuitivas.

Carpenter, Pan e Butler (2022), Nature Reviews Psychology.

Agendar revisões com um modelo de memória

Investigadores da aplicação de línguas MaiMemo publicaram um algoritmo que agenda as revisões de cada aluno de forma a minimizar o custo de memorização. O algoritmo é usado nessa aplicação.

Ye, Su e Cao (2022), KDD.

O valor g mede a diferença entre os dois grupos em desvios padrão: quanto maior, maior a vantagem de quem espaçou.

De onde vem a ideia. Uma síntese de 2006, com 317 experiências de 184 artigos, já concluíra que estudar em duas ocasiões separadas supera estudar de uma só vez (Cepeda e outros, 2006). Em 2008, a mesma equipa mostrou que o intervalo ideal entre sessões cresce com o tempo de retenção: cerca de 20 a 40% desse tempo para um teste a uma semana, cerca de 5 a 10% para um teste a um ano (Cepeda e outros, 2008). Numa revisão de dez técnicas de estudo, a prática distribuída foi uma das duas com utilidade elevada (Dunlosky e outros, 2013).

Porque funciona

  • Cada revisão exige algum esforço. Recordar algo que começou a desvanecer-se é mais difícil do que repetir algo que se acabou de ver, e condições que tornam a prática mais exigente podem melhorar a retenção a longo prazo (Bjork, 1994). Ver dificuldades desejáveis.
  • O intervalo adapta-se ao objectivo. Para recordar durante meses, o intervalo ideal entre revisões é maior do que para recordar durante dias (Cepeda e outros, 2008).
  • Junta-se bem à prática de recuperação. Rever a responder a perguntas combina os dois efeitos. Ver prática de recuperação.

O modelo de meia-vida da memória

A meia-vida de uma memória é o tempo ao fim do qual a probabilidade de a recordar cai para metade. Com base no histórico de respostas de cada pessoa a cada pergunta, é possível estimar essa meia-vida e decidir quando a pergunta deve voltar (Settles e Meeder, 2016).

Como o jogo aplica isto

Exemplo ilustrativo. O ecrã inicial mostra o nível e as medalhas; por trás, o algoritmo escolhe as seis perguntas de hoje.
  • Cada participante tem um modelo de meia-vida da memória para cada pergunta.
  • Quando acerta, o intervalo até a pergunta voltar aumenta; quando erra, encurta e a pergunta volta em breve.
  • O intervalo não segue um calendário fixo: ajusta-se às respostas de cada pessoa. As meta-análises não encontraram vantagem num calendário fixo de intervalos crescentes sobre intervalos iguais; o que mostraram foi a vantagem de espaçar, e de espaçar mais quando se quer recordar durante mais tempo.
  • Quando a memória estimada passa os sete dias, a pergunta conta como dominada e aparece raramente.
  • Explicamos o ciclo completo de uma pergunta em como funciona.

Referências

  1. Carpenter, S. K., Pan, S. C. e Butler, A. C. (2022). The science of effective learning with spacing and retrieval practice. Nature Reviews Psychology, 1(9), 496 a 511. doi:10.1038/s44159-022-00089-1
  2. Kim, S. K. e Webb, S. (2022). The effects of spaced practice on second language learning: a meta-analysis. Language Learning, 72(1), 269 a 319. doi:10.1111/lang.12479
  3. Ye, J., Su, J. e Cao, Y. (2022). A stochastic shortest path algorithm for optimizing spaced repetition scheduling. Proceedings of the 28th ACM SIGKDD Conference on Knowledge Discovery and Data Mining (KDD 2022), 4381 a 4390. doi:10.1145/3534678.3539081
  4. Latimier, A., Peyre, H. e Ramus, F. (2021). A meta-analytic review of the benefit of spacing out retrieval practice episodes on retention. Educational Psychology Review, 33(3), 959 a 987. doi:10.1007/s10648-020-09572-8
  5. Settles, B. e Meeder, B. (2016). A trainable spaced repetition model for language learning. Proceedings of the 54th Annual Meeting of the Association for Computational Linguistics (ACL 2016), 1848 a 1858. doi:10.18653/v1/P16-1174
  6. Dunlosky, J., Rawson, K. A., Marsh, E. J., Nathan, M. J. e Willingham, D. T. (2013). Improving students' learning with effective learning techniques: promising directions from cognitive and educational psychology. Psychological Science in the Public Interest, 14(1), 4 a 58. doi:10.1177/1529100612453266
  7. Cepeda, N. J., Vul, E., Rohrer, D., Wixted, J. T. e Pashler, H. (2008). Spacing effects in learning: a temporal ridgeline of optimal retention. Psychological Science, 19(11), 1095 a 1102. doi:10.1111/j.1467-9280.2008.02209.x
  8. Cepeda, N. J., Pashler, H., Vul, E., Wixted, J. T. e Rohrer, D. (2006). Distributed practice in verbal recall tasks: a review and quantitative synthesis. Psychological Bulletin, 132(3), 354 a 380. doi:10.1037/0033-2909.132.3.354
  9. Bjork, R. A. (1994). Memory and metamemory considerations in the training of human beings. Em J. Metcalfe e A. Shimamura (Eds.), Metacognition: knowing about knowing. MIT Press, pp. 185 a 205.
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